Os caminhos para atualizar o ensino médio
Alessandra Bizoni
Aprovado no último dia 30 de junho por integrantes das Câmaras de Educação Básica e Educação Superior do Conselho Nacional de Educação (CNE), o parecer CNE/CP nº11/2009, que propõe normas para um "Ensino Médio Inovador" está gerando muitas dúvidas no meio educacional.
Até mesmo entre especialistas, o documento aprovado em Brasília suscitou interesse e questionamentos sobre o que vem a ser o ensino médio inovador. Entre educadores e estudantes, a dificuldade de entendimento do projeto pode ser resumida em uma pergunta comum: esta é uma nova proposta para os currículos do ensino médio do país? Com isso o ensino médio de todas as escolas vai mudar?
Em princípio, não. A nova organização curricular estruturada nos eixos trabalho, cultura, tecnologia e ciência ficará restrita às escolas das redes estaduais e federal que aderirem ao programa, orçado em R$100 milhões e financiado pelo Ministério da Educação (MEC). A previsão é que em todo o país, inicialmente, 100 unidades de ensino integrem o projeto.
Embora de caráter experimental, o "Ensino Médio Inovador" já divide o meio educacional, com opiniões favoráveis e contrárias às mudanças porpostas. O projeto prevê o aumento da carga horária de 2.400 para três mil horas nas escolas que aderirem, sendo 20% do tempo será destinado a disciplinas optativas, entre outras medidas.
Embora legalmente o documento do CNE não altere as diretrizes curriculares nacionais do ensino médio, a medida já repercute no meio educacional, mesmo antes da homologação do Ministério da Educação (MEC). Em sintonia com as mudanças sinalizadas pelo novo modelo do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem), adotado em 42 das 55 universidades federais, a proposta surge como uma resposta do MEC — o projeto foi encaminhado ao CNE pela Secretaria de Educação Básica (SEB) — para orientar o modelo alternativo de vestibular das universidades federais, que preconiza a interdisciplinaridade e a contextualização de conteúdos programáticos.
Relator do Parecer CNE/CP nº.11/2009, Francisco Aparecido Cordão, que integra a Câmara de Educação Básica do CNE, esclarece que a matéria foi analisada pelo pleno do colegiado, pois trará implicações nas questões de ensino superior. Além disso, a última versão discutida no CNE contou com a colaboração de aproximadamente 30 entidades da sociedade civil, que participaram da audiência pública realizada pelo órgão, em Brasília, no dia 1º de junho, para discutir o projeto do MEC.
A repercussão da medida foi tanta que o MEC sinaliza efetivamente com o propósito de discutir alterações nas Diretrizes Curriculares Nacionais. "O 'Ensino Médio Inovador' não implica, necessariamente, na formulação de novas Diretrizes Curriculares Nacionais para esse ensino. Pode, no entanto, vir a induzir ou contribuir para sua atualização, na medida em que venha a ser uma experiência exitosa, que traga mudanças significativas de organização curricular, mais contemporânea e de maior interesse para os alunos", pondera o relator do parecer.
Em entrevista à FOLHA DIRIGIDA, a secretária de Educação Básica do MEC, Maria do Pilar Lacerda Almeida e Silva, admite que o órgão deve fomentar no CNE uma revisão das Diretrizes Curriculares Nacionais, não apenas do ensino médio, mas de toda a educação básica (veja a entrevista na página 5 do Caderno de Educação).
Para que o "Ensino Médio Inovador" seja aplicado, mesmo em caráter experimental, será preciso realizar uma capacitação com os docentes da instituições de ensino pertencentes ao programa. É o que afirma a educadora Terezinha Saraiva.
"Mesmo tratando-se de uma proposta experimental, portanto, inicialmente restrita a algumas escolas, por se tratar de uma nova organização curricular que tem inevitavelmente, reflexos na prática docente, penso que os atuais professores que foram formados em licenciaturas que não os preparou para uma docência integradora e interdisciplinar, deverão receber uma capacitação, que poderá ser realizada no próprio local de trabalho. Sempre achei que, qualquer mudança, sobretudo curricular, deveria ser discutida, concomitantemente, com as licenciaturas que deverão ser redesenhadas", pondera Terezinha Saraiva, que integrou o extinto Conselho Federal de Educação.
Terezinha Saraiva, observa, ainda, que o parecer CNE/CP nº11/2009 não cria "áreas de conhecimento". "As normas contidas no parecer CNE/CP nº 11/2009 não são, portanto, para serem implantadas, no momento, em todas as escolas de ensino médio brasileiro... Não se trata de uma nova estrutura para o ensino médio e, sim, de uma nova organização curricular inovadora", esclarece a educadora.
Edgar Morin defende a religação dos saberes
Numa época em que a globalização da economia, a velocidade da informação e os conflitos entre as nações deixam a humanidade perplexa, a figura do professor assume um papel central, na medida em que se faz urgente a implementação de um novo paradigma para educação. Caberá aos docentes, no futuro, conduzir o processo de religação dos saberes.
Essa foi a mensagem da palestra feita pelo sociólogo e filósofo francês Edgar Morin, no último dia 6, na Escola Sesc de Ensino Médio (Esem), que funciona no complexo Sesc/Senac, na Barra da Tijuca. A partir do tema "A Religação dos Saberes e o Ensino Médio", o fundador do Centro de Estudos Transdisciplinares da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris sinalizou quais são os desafios dos educadores no século XXI.
Autor de mais de 30 livros, entre eles "Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro", texto que serviu de base, entre outros, para elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais, Edgar Morin defendeu a integração dos conhecimentos, numa perspectiva similar àquela presente no cerne do programa "Ensino Médio Inovador" — sua obra tem sido um dos norteadores do corpo técnico que elabora as políticas do MEC.
E foi justamente para gestores, como a secretária de Educação Básica do MEC, Maria do Pilar Lacerda; o diretor de concepções e orientações para o ensino médio, Carlos Artexes; o integrante do Conselho Nacional de Educação (CNE) e consultor pedagógico da Esem, Francisco Aparecido Cordão; o presidente do Conselho Nacional do Sesc/Senac, Antônio Oliveira Santos; o diretor-geral do Departamento Nacional do Sesc, Maron Emile Abi-Abibi; e para a diretora da Esem, Claudia Fadel, que o pensador apresentou as idéias presentes no livro "A Religação dos saberes - O desafio do século XXI".
Prestes a completar 88 anos — seu aniversário foi na última quarta, dia 8 —, Morin ganhou um painel de presente dos alunos, durante a apresentação da Esem. Admirador do Brasil, afirmou que nosso país têm todas as condições para iniciar a reforma educacional, que deve se estender da educação básica ao ensino superior.
Segundo o sociólogo, existem conhecimentos biológicos, psiquícos, sociais, físicos e que, para realizar uma análise complexa, todos esses conhecimentos devem se concentrar em um objeto de estudo. Nesse sentido, a interdisciplinariedade e a transidsciplinaridade devem estar presentes tanto no ensino básico quanto no ensino superior. E, explicou o filósofo, o professor precisa ser o condutor desse processo, por isso, sua formação também deve ser multidisciplinar.
"Precisamos fazer a cultura renascer de um modo novo, no qual a cultura científica se una à cultura humanista. As Letras, as Artes, a Filosofia, a Música devem ser unir às Ciências Sociais, à Física, à Biologia. E o professor terá o importante papel de conduzir essa revolução, na medida em que fará a articulação entre esses diversos saberes", completou o pensador francês.
Filósofo francês elogia educadores brasileiros
"A educação brasileira ainda tem os mesmos modelos da educação de outros países e precisa de mudanças. Quando visito escolas e instituições, percebo que existe um movimento de pensar o mundo mais complexo, com seus problemas mais importantes, percebo que há um avanço no Brasil", observou Edgar Morin.
Ao defender uma revolução no sistema educacional, o fundador do Centro de Estudos Transdisciplinares da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris destacou a experiência da Escola Sesc — onde há um intenso trabalho interdisciplinar, uma preocupação com várias dimensões da formação cidadã e um incentivo à diversidade (a Esem abriga estudantes de todas as unidades da federação) — como um passo concreto para implementação desse novo paradigma educacional.
"Eu penso que aqui, no complexo da Escola Sesc, eu encontro as condições, o modo de cultura, a compreensão das idéias que defendo. Penso que daqui pode sair um movimento efervescente. Por exemplo, meu livro 'Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro' vendeu cinco mil exemplares na França e no Brasil, já foram mais de 160 mil exemplares. O Brasil é um dos lugares no mundo onde meus livros são mais vendidos. Isso significa que há uma difusão das minhas idéias e que os professores desejam essa mudança. Por isso, esse movimento pode ajudar a fazer com que o Brasil seja o iniciador dessa reforma", revelou o pensador francês.
Morin assinalou, ainda, a necessidade de maior compreensão entre os homens para que não haja apenas avanços tecnológicos, mas também progresso nas relações humanas e nas preocupações ecológicas. Nesse sentido, o filósofo elogiou o potencial transformador da cultura brasileira.
"A cultura brasileira é muito aberta e muito rica, até mesmo pelo fato de ser uma cultura mestiça, na qual há o habito das mudanças, das transformações. Ela se apodera das coisas importantes para se constituir. Eu sinto nessa cultura a compreensão, o calor humano, a vontade de melhorar sempre. Essa vontade está nas políticas para as comunidades carentes, nas políticas sociais. Eu creio que no Brasil há uma grande vitalidade e uma grande força para mudar as coisas", concluiu o autor de "Os Setes Saberes Necessários à Educação do Futuro".
Publicado originalmente na Folha Dirigida em 08/07/2009