Mais do que ensinar, escolas colocam exemplos em prática em suas instalações. Para especialistas, o desafio de construir valores é mais amplo do que reciclar o lixo.
RENATO DECCACHE

Na Escola SESC, o teto é feito com material reciclado que reduz o consumo de energia.
Ao longo dos anos, cada pessoa aprende todos os dias que precisa pensar no seu próprio futuro. Na adolescência, a meta é conseguir notas para ficar entre os destaques da turma. Na juventude, o foco é, muitas vezes, se preparar para conseguir uma vaga em uma universidade, de preferência pública, ou um lugar no mercado de trabalho. Na fase adulta, os objetivos de crescimento profissional e de independência financeira assumem o comando das atitudes e da postura de cada um diante da vida.
Um dos problemas desta lógica é que a busca pelo sucesso pessoal restringe a visão de que o êxito de cada um, de alguma forma, depende dos outros. Até por isto, ganha cada vez mais força a educação pautada pela sustentabilidade, que incentiva o estudante a pensar no melhor para seu futuro, mas sem ignorar seu papel para uma sociedade mais justa. A novidade neste processo é que as próprias instituições de ensino estão mais conscientes de que também têm de dar o exemplo.
Os 130 mil metros quadrados da Escola SESC, na Barra da Tijuca, foram projetados a partir da idéia de uma escola sustentável, com recursos como sistema à vácuo para redução do consumo de água, captação de energia solar, além do uso de sensores que desligam o ar-condicionado quando as salas ficam vazias. Mais do que reduzir custos, a escola procurou, com a tecnologia, passar uma lição de consumo responsável a seus estudantes. Este, por sinal, é o tema do projeto pedagógico este ano, que norteia desde a produção de textos, até realização de pesquisas de campo e trabalhos em laboratório.
“O objetivo é pensar a relação entre ação individual e a sua respectiva incidência no grupo social, para inserir no cotidiano do aluno a prática do consumo responsável”, explicou o gerente pedagógico da Escola SESC, professor Antonio Viveiros.
Exemplo das escolas reforça conscientização - No Santa Mônica Centro Educacional, o uso de torneiras com fechamento automático, a utilização de materiais desmontáveis e reaproveitáveis e de um sistema de aproveitamento da água de chuva são alguns exemplos de ações que caminham na linha da sustentabilidade. Além do retorno do ponto de vista econômico, em especial no longo prazo, a escola acredita que este tipo de postura tem um impacto muito positivo junto aos alunos. “Partimos do discurso para a ação e este é o melhor exemplo”, frisou Marcelo Miguez, Gerente de Comunicação e Marketing da instituição.
Este tipo de postura traz, pelo menos, três lições para os estudantes: a necessidade de preservação de recursos naturais, a viabilidade do uso de materiais renováveis e o impacto na geração de riquezas que estas duas práticas podem ter. É também uma forma, como diz Marcelo Miguez, de mostrar aos jovens e crianças o mundo com suas carências, necessidades e oportunidades.
“É importante formar uma nova geração de cidadãos conscientes, éticos e empreendedores para suprir as necessidades do homem, do mundo e da vida futura”, comentou Miguez. Uma escola sustentável não se pauta só na sua estrutura física. É importante também uma associação com parte pedagógica, como salienta Antonio Viveiros, da Escola SESC. “Não adiantaria nada um projeto arquitetônico que valorizasse a sustentabilidade, sem que, nas salas de aula e nos outros espaços da escola, acontecesse esta reflexão para sensibilizar os alunos para a importância do tema.” A preocupação com o tema não é só das escolas.
A Vale do Rio Doce, por exemplo, desenvolve há seis meses o programa Convivência, nas cidades de Corumbá e Ladário, em Minas Gerais, em parceria com secretarias municipais de Educação, de Meio Ambiente e Cultura. Um dos principais resultados, segundo Azemar Sepúlveda, gerente geral de Operações do complexo Corumbá da Vale, é a percepção de que a questão ambiental não se resume à preservação de áreas verdes.
“O jovem não costuma ver muitas conexões com o seu cotidiano, com suas próprias atitudes diárias e como um processo integrado de relações sociais. Mas o tema está ganhando mais espaço na agenda da juventude.”
É essencial ir além da questão ambiental - Quando o assunto é sustentabilidade nas escolas, entre as práticas mais comuns estão a coleta de lixo em praias e espaços públicos, manutenção de hortas, entre outras. Mas, sustentabilidade não se resume a isto, como defende o professor Lincoln Tavares, membro do Conselho Estadual de Educação. “Não é este tipo de prática que irá influenciar nas relações humanas e sociais, de forma a mudar para melhor a qualidade de vida das pessoas”, comentou Lincoln, que também é professor do Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (CAp-Uerj). Para ele, as práticas nesta linha precisam ter continuidade. “Mobilizar a escola em atividades por causa do Dia do Meio Ambiente não é Educação Ambiental. Por isto, nossos projetos costumam trabalhar com o aluno o ano inteiro.”
Outro erro que as escolas precisam evitar, para o educador, é o que chamou de “visão biologizante” das atividades voltadas para o meio ambiente. “Meio ambiente é tudo, inclusive problemas como desigualdades sociais, fome, consumo irresponsável, entre outros”, comentou Lincoln.
Mestre em Educação e Sociedade pela UFRJ, o professor Paulo Boccheti coordena o projeto oto-Vivência, que incentiva comportamentos sustentáveis junto a estudantes. Segundo ele, a escola é o espaço ideal para desenvolver no estudante esta visão. “Nos currículos escolares, seria importante ter uma parte voltada para o desenvolvimento de competências comportamentais. Uma vez que o sujeito tem o domínio de si próprio, além de uma boa relação com o outro e com os problemas que precisa enfrentar, é diferenciado e será um agente em prol da sustentabilidade”, salientou o especialista.
Currículo extenso dificulta abordagem - Doutor em Meio Ambiente pela UERJ e um dos coordenadores do VI Fórum de Educação Ambiental, que ocorrerá este mês na UFRJ, o professor Declev Dib-Ferreira acredita que, por causa do currículo extenso, as escolas têm dificuldade em trabalhar com a sustentabilidade. Para ele, o foco nos conteúdos faz com que, muitas vezes, a construção de valores fique em segundo plano. As questões da educação ambiental e da sustentabilidade, mesmo quando trabalhadas, o são superficialmente, fundadas em atividades como não jogar lixo no chão, economizar água. Porém, a sustentabilidade é também discutir e repensar a sociedade de consumo de hoje.” Para ele, dependendo a forma como a prática pedagógica for implantada, pode ter o efeito inverso. “Gincanas para recolhimento de latinhas, por exemplo, não são sequer educativas. Será que atividade como estas não incentivam os alunos consumirem e produzirem mais lixo? Não seria educativo trabalhar a questão da alimentação saudável? Fazer o aluno catar lixo na praia não o fará parar de destruir a escola, de desperdiçar papel do caderno, de querer trocar de celular a cada mês...”, defendeu o professor Declev.
Estudantes de escolas privadas do Rio escreverão sobre o tema.
Para especialistas, o desafio de construir valores é mais amplo do que reciclar o lixo Um concurso de redações vai trazer as discussões em torno da sustentabilidade para a ordem do dia de várias escolas. O Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Rio de Janeiro (Sinepe-Rio) promove, este ano, um concurso de redações que tem como tema Desenvolvimento Sustentável: um pacto entre as gerações. Poderão participar alunos do 9º do ensino fundamental e das três séries do ensino médio de escolas privadas. O objetivo é incentivar as escolas a promoverem debates e atividades que levem seus alunos a refletirem sobre como construir uma realidade mais justa e sustentável para todos. “É um tema que vem ganhando, a cada dia, mais enfoque nas escolas”, comentou Henrique Zaremba, diretor de Assuntos Econômicos da Federação Nacional das Escolas Particulares, instituição que apóia o concurso.
As inscrições ficam abertas até 14 de agosto. O primeiro lugar de cada série receberá um notebook; o segundo, uma câmera digital; e o terceiro um celular Blackberry. Além disso, será publicada em um outro livro uma coletânea com as 50 melhores redações. Para Henrique Zaremba, não poderia haver tema mais importante para os alunos refletirem. “Hoje em dia a criação de leis não basta, é necessário envolver o indivíduo nessa questão e ensiná-lo a modificar o seu comportamento em relação ao meio ambiente”, frisou o educador.
Esse artigo foi publicado na Folha Dirigida em 02/07/2009